Deu na mídia
Ele não viu uma foto dele sequer nas revistas, jornais e sites. O Google era a última estratégia para comprovar a sua existência.
Por Tiago Velasco em Escrevinhando
Pegou a pilha de revistas que vem guardando desde o início da adolescência. Não, não são revistas de mulheres peladas ou pornográficas. Pelo menos não são SÓ revistas de mulheres peladas ou pornográficas. Há, ali, uma série de publicações de temas variados: futebol, carro, música, álbuns de figurinhas… Mas ele queria achar as de celebridades. Não sabe o porquê. Apenas acordou com essa vontade. E isso lhe bastava. Não estava preocupado em procurar entender as motivações que o levava a procurar as revistas de atores, atrizes, sensações de realities shows…
Dava atenção a cada fotografia. Olhava famoso por famoso. Ele conhecia todos. Alguns, como Xuxa, Ayrton Senna e a então pré-adolescente Angélica, eram responsáveis por pontas de nostalgia. Uma espécie de melancolia de sua criancice, embora, o oposto, a velhice, ainda fosse demorar a se instalar em seu corpo. Ainda assim, sentia falta desse tempo. Ou do tempo em que suas preocupações se restringiam a trocar de canal em busca do melhor programa para passar a tarde, enquanto tomava Q-Suco e comia pipoca.
Depois, se ateve às celebridades do momento, dispostas nas revistas e nos jornais do dia: Diego Alemão, Maisa, Marcelo Adnet, o assassino do menino João Hélio, até o Maníaco do Parque foi ressuscitado em uma reportagem do jornal que falava de um outro maníaco qualquer, ainda não catalogado na lista invisível, porém existente, dos seres midiáticos. O fato é que, não importa o que os levou a tal status, todos eram famosos. E ele sabia. Sabia porque estavam ali, com seus rostos estampados, nas páginas das revistas, nos anúncios publicitários ou na TV, fossem em novelas, programas de auditórios ou telejornais.
Ele conhecia, com detalhes, a vida e obra de cada uma daquelas figuras. Não, nunca os tinha visto pessoalmente, mas acompanhava todos os passos pela internet, seguia-os no Twitter, era fã no Orkut ou até amigo – amigo de um famoso! – no Facebook. Um dia, ao avistar de longe com um desses amigos, quase foi lá cumprimentá-lo. Uma pitada de bom senso – ou seria medo? – impediu-o de dar cabo da tarefa.
No café da manhã, fatias de mamão papaya, iogurte natural com granola e mel, suco de laranja e uma xícara de chá. Findo o desjejum, academia com o personal: duas horas, quatro vezes na semana. A secretária respondia os e-mails e passava a agenda. O almoço era leve: saladinha verde, um peito de frango grelhado e legumes crus. Um descanso de 40 minutos e ia para os compromissos com patrocinadores. Era a vida que ele queria. A que lia e via nas revistas e sites. Não a dele. A dele era enfurnada entre papéis, pastas suspensas, grampeadores, fotocópias e firmas reconhecidas que não tinham fim. Nada de glamour. Nada que valesse a pena aparecer na mídia. É na mídia que estão as pessoas de verdade. As pessoas que existem de fato.
Ele fez uma lista, coisa rápida, de pessoas que o conheciam. Não dava nem cem, entre parentes e colegas de trabalho, incluindo aqueles que nem sabiam o nome dele. Agora, quantas pessoas conhecem o Luciano Huck? Milhões e milhões. Ele deu risada. Concluiu, objetivamente, que, comparado ao Faustão, ninguém sabia da existência dele. Reformulou o raciocínio: ele não existia para ninguém. OK, a mãe dele sabia de sua existência. Mas mãe é mãe. Não vale.
Será que ele não existia mesmo? A pergunta que formulou na cabeça, apesar de sua resposta óbvia, deixou-o com a pulga atrás da orelha. Foi na lan house mais próxima de sua casa, acessou a internet e pôs seu nome no Google. Todos que existiam estavam lá. Era assim que procurava saber sobre as celebridades das quais era fã. Em meio segundo, apareceu uma única referência com o nome dele. Era do site da empresa em que trabalhava. Estavam lá, o nome e as funções que exercia: fotocópias, pagamentos bancários, reconhecimento de firma.
Ele não tinha mais dúvida quanto a sua existência. Se nem firma ele tinha para reconhecer…












Ótimo Tiago, muito bem escrito como sempre!
Engraçado que as pessoas se pautam nisso pra tudo hoje em dia, chegando ao ponto de se acharem hiper famosos, tem que se tomar cuidado com essa grande armadilha. Um blackout nos servidores e ela deixa de existir!
O que fazer? Deixar que a vida online seja extensão da real e não o contrário!
Abraços
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