Jogando o velho fora
Por O Quarteto – Joakim Antonio – em Grito de liberdade
Ontem eu decidi separar as coisas que não me servem mais, como trabalho também com conserto de micros sempre há algumas peças que guardo para uso futuro e após um tempo não valem mais nada, devido às constantes mudanças na parte de hardware dos PCs. Incluem-se nesse montante até partes de peças somente que podem ajudar a economizar no conserto para alguém que necessite e não tem como pagar por ele, algumas que ainda tem valor de venda, passo para minha irmã para serem vendidas no seu brechó.
As restantes, depois de colocadas em uma caixa, ficam por um tempo na garagem onde possam ser vistas e quem se interessa as leva embora para uso ou até para vender no ferro-velho. Ao colocar uma dessas caixas lá um amigo passou e disse: “nossa, quanta velharia”, outro passou e pediu uma peça, pois estava precisando e não encontrava mais: “você salvou a pátria, lá em casa as crianças estão sem micro”.
Se analisarmos a situação, podemos ver que o que é velho para alguns é a salvação da pátria para outros, ou melhor, o que parece velho, pois o conceito de velho é muito amplo. Mas o uso que mais me incomoda é quando usamos velho para designar pessoas.
Cresci ouvindo minha mãe dizer, ao ouvir na TV ou rádio, quando usavam a palavra velho para designar pessoas: Velho é coisa que a gente joga fora!
Mas se prestarmos atenção, é justamente isso que está acontecendo, os idosos estão sendo tratados como velharia em uma caixa em alguns lugares, converse com alguém que precise trabalhar e esteja na faixa de 60 anos, alguns lugares a partir dos 40 não querem mais fazer contratações. Ninguém está pedindo para contratar alguém por dó, só para dar emprego. Que se façam os mesmos testes e contratem os melhores profissionais, não restrinjam as oportunidades apenas a uma faixa etária.
Se olhássemos apenas a idade como referência, então poderíamos excluir a contratação de: Leonardo da Vinci, Goethe, Leo Tolstoi, Benjamim Franklin, Winston Churchill, Michelangelo, Albert Einstein, etc. Todos eles em plena atividade após os 60 anos de idade.
Diga-me, em sã consciência, quem dispensaria uma mente dessas, a mesma pessoa que não contrata alguém após os 40 para ser gerente na sua loja, não confia em um presidente de empresa e nem vota em um candidato a presidência do país com pouca idade.
Esse quadro está mudando, muito lentamente, mas não por vontade própria; afinal o pessoal da terceira idade possui cada vez mais poder aquisitivo, o que em parte faz com que sejam ouvidos. O número de idosos cresce a cada ano, tornando a sua influência em todas as áreas importantíssima, quem desprezar a opinião deles estará cada vez mais fadado ao fracasso.
Dia a dia, os idosos se livram das amarras de dependências antigas e caminham cada vez mais com suas próprias pernas ou dirigindo seus próprios automóveis, viajando pelo Brasil, pelo mundo e pela internet.
São eles que estão jogando os velhos fora, velhos preconceitos, dogmas, paradigmas e trazendo o novo cada vez mais ao nosso alcance, novas conquistas, tecnológicas, científicas, confortos mil que são pensados para eles, mas usados por nós também.
Os idosos viviam sufocados sem escolhas, mas agora eles que dão seu grito de liberdade!
Eu tive a sorte de aprender em casa a não envelhecer, sendo criado por uma mãe que até hoje aos 76 anos, não gosta muito quando querem ajudá-la a carregar suas sacolinhas do mercado, afinal eles pensam o quê, que ela é velha?!
—————————————————————————————————————————–
No Brasil o idoso tem seu direito assegurado na constituição, ótimo, já que alguns precisam de uma lei para tratá-lo bem, pois tratar bem a todos é a base do bom viver, independente da faixa etária do seu semelhante.
Estatuto do idoso – Título I – Disposições Preliminares – Artigo 3o
É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
—————————————————————————————————————————–
- O Brasil possui cerca de 19 milhões de pessoas com 60 anos ou mais
- População de idosos chegará à casa dos 32 milhões em 2025 no Brasil.
- Em 2025, País será o sexto em número de idosos no mundo. É o grupo etário que mais cresce no Brasil.
- Quase seis milhões de pessoas com mais de 60 anos trabalham.
- Os idosos são responsáveis pela manutenção de 25% das casas no País e possuem potencial de consumo de R$ 7,5 bilhões, o dobro da média nacional.
Fonte: IBGE












É… deve-se sempre respeitar, não importa a quem. Suas escrituras sempre trazem à minha lembrança fatos vividos meus, e são fatos dignos de serem expostos, pela sua didática imanente.
Eu acabara de desembarcar do vagão de metrô, na estação da linha azul Paraíso, e me encaminhava junto com a multidão à escada de degraus mais próxima (porque há escadas rolantes também, que eu evito terminantemente).
E de repente eu noto que uma senhora já vai se esgoelando ali na beira do primeiro degrau pedindo a transeuntes diversos que a auxiliem a levar uma sacola sua (que está em uma de suas mãos, do tamanho da de uma de supermercado), e todos, invariavelmente, passam mudos e fingindo não perceber, não escutar.
Eu pensei: se for uma bomba, ela vai matar todo mundo aqui de qualquer jeito. Se for uma droga e ela quiser usar alguém como laranja, eu vou correr ao menos desta vez o risco e ver no que dá ajudá-la.
Pois assim levei sua sacola, que para mim não estava pesada, pois que sou um homem jovem em seu pleno viço juvenil, nada a causar orgulho, mas um simples fato a ser constatado, como outro qualquer. E a senhora, segundo as próprias palavras, estava com o braço dorido, e terminou por subir os dois lances de escada penosamente, passo a passo, vagaroso.
No fim eu a esperava já há menos de um minuto, e a ela passei seus pertences, ao que ele me agreceu e me recomendou a Deus, como todo(a) bom(a) e louvável senhor(a) das gerações imediatamente predecessoras às nossas.
Uma época na qual se valorizava o valor humano pelo que é – e não pelos ornamentos que em torno de si se aglomeram sem distinção.
Obrigado, Joakim, pela reflexão muito bem cabida de seu texto sobre os nossos anciãos, tão desdenhados e incompreendidos pela geração atual – como se os próprios jovens de hoje não fossem envelhecer. Um disparate de um mundo pueril. Só pode ser. Sobre o valor dos anciãos na cultura africana, ver minha resenha sobre o filme “Fad’jal”(1979…http://fejapimenta.blogspot.com/2009/05/fadjal-safi-faye-1979.html)
O interessante é que você não me conhece meus escritos em prosa ainda. Pode ser um bom pontapé. Depois eu poderia te indicar outros. \O/
Comente!