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Quando as palavras faltam…

24 Fevereiro 2010 4 comentários

Por Isa em Eventualidades

Saudações, leitor!

Começo pedindo-lhe desculpas. Excepcionalmente, dessa vez, não irei compartilhar com vocês palavras minhas. Mas busquei o texto de uma mulher com qual muito me identifico e que explica um pouco por que não consegui exteriorizar nada digno de ser estampado aqui no Prosa em Verso.

Com vocês, Martha Medeiros:

“A tristeza permitida

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga / nestas noites quentes de verão / e não me importa que mil raios partam / qualquer sentido vago da razão / eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.”

Bom, espero que não tinha sido muito decepcionante, afinal, Martha Medeiros é Martha Medeiros… um beijo carinhoso em todos!

4 comentários »

  • S.C. Arte&Cultura said:

    Olá Querida…

    Sabe tá ficando tão gostoso vir aqui e ler coisas que a gente precisa.

    Adoreiii….

    Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.”

    Ameiiii…

    Beijos e obrigada por este texto,me fez refçetir e ganhar meu dia!!!

  • Paula Jácome said:

    Ótimo!

  • Thaisa said:

    -Sandra, fico feliz demais por ver que você entendeu tudinho… parece que a Martha escreve alguns de seus textos olhando por dentro de nós! Beijos, e obrigada pelo carinho!

    -Paula, se não me engano é seu 1° comentário aqui. Agradeço muito por ter lido, e ainda mais por ter deixado seu recado ;)

  • César Gonçalves said:

    Minha nova e muito querida #tatuafilhada :-)

    amei seu texto demais :-) , fala de momentos que acho que todos passamos e não queremos sentir, eu não fujo á regra, tenho momentos tristes também :-) , mas sair deles não e com médicos ou medicamentos não :-) , procuro sempre razões na alegria dos que me rodeiam ou então mesmo dentro de mim, pois dentro de nós poderemos sempre encontar milhares de razões para voltar sorrir, pois acima de tudo, nós devemos ser sempre a nossa melhor razão de ser felizes :-) , mas por estranho que possa parecer as vezes basta-me ligar o TT e ver a alegria e sorriso de pessoas como voce e meu sorriso volta, verdade!

    eu tenho um lema de vida, temos sempre que pensar em coisas positivas para a nossa vida para elas virem para nós, pois as negativas se tiverem que chegar vêm na mesma sem nós chamar :-) , por isso tento sempre chamar as boas e luto por elas :-) !

    adoro você menina :-)

    beijo no seu coração :-)

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