É carnaval, é a doce ilusão…
Colunista usa a crônica e recorre até a Freud para explicar comportamento anticarnavalesco
Por Tiago Velasco em Escrevinhando
Cronista que se preza fica atento ao burburinho cotidiano para captar as miudezas do dia a dia e transformá-las, sabiamente, em texto para ser consumido de forma rápida, quase ao mesmo tempo em que é descartado. A crônica transforma a situação ordinária em objeto de prosa poética e despretensiosa, cujo único compromisso é com a satisfação da leveza. Leveza que conduz os dedos que digitam o cronista; mas, é claro, leveza esta contida nas linhas que serão lidas prazerosamente por algum leitor. O cronista escreve para um leitor que imagina ter, mas que, na impossibilidade de saber quem o lê, assume-se – o próprio cronista – como seu leitor mais fiel e crítico.
O preâmbulo que parece não levar a lugar algum, como um artifício retórico que conduz o leitor – ou o cronista – a uma viagem circular, não é nada mais do que a forma que o cronista aqui encontrou de justificar o seu tema batido: o carnaval. Não pense que a escolha se dá por mera preguiça. Não é verdade. Pelo menos, não em sua totalidade. É que uma outra qualidade do cronista é se utilizar dos temas do momento para cronicar.
Sem querer ser ranzinza, mas inevitavelmente sendo, tenho que confessar que não gosto de carnaval. Não vou nem me aprofundar na ideia da felicidade sem sentido que assola grande parte da população durante um bom par de dias e que, ao fim, mas inevitavelmente, se transforma em protodepressão. A tristeza que acomete foliões é tamanha que a festa de Momo dura mais a cada ano.
Deixemos isso para lá. O bom da crônica é fazer filosofia de botequim ou pseudoanálise com um conjunto diminuto de palavras. Assim, percebo que devo reformular a minha ranzinzice supracitada: não gosto mesmo é de blocos de carnaval. Freud explica. E, tenho para mim, que é trauma de infância. Se não for, já passou a ser há uma boa quantidade de anos, devido à minha insistência em explicar o meu mau humor assim que avisto um bloco.
Explico: quando era moleque, até mais ou menos uns 9 anos de idade, mamãe costumava me levar à folia carioca. “Filho, vamos para a banda” (naquela época usava-se banda até mais do que bloco para batizar aquele aglomerado de pessoas plumadas e suadas). E lá ia eu, com mamãe feliz da vida (só ela, que fique claro), para o Simpatia é Quase Amor, Banda de Ipanema, Banda do Leblon…
Já moleque, tinha personalidade forte. O suficiente para ir contra toda aquela turba alegre. Não achava a menor graça naquilo. Coca-cola, música repetitiva em um sistema de som horrível, pessoas se esbarrando, cansaço… Putz, como os adultos conseguem gostar dessa merda? Era o que passava pela minha cabeça de criança – com o palavrão e tudo! Então, a primeira vez que reuni minhas forças, aliada a uma certa idade para ficar sozinho em casa, falei: “não, mamãe, eu não vou. Odeio ir ao Simpatia…” Se soubesse que seria tão fácil, talvez tivesse batido o pé antes.
Depois desse fatídico corte na minha vida foliã, tentei me reconciliar com o carnaval algumas vezes. Em vão. É eu ouvir a batucada, aquele som esquisito, aquele povo felicíssimo, aquela muvuca, sem nem ao menos ter a expectativa pelo gol que dará o título ao time de coração que a justifique, e qualquer nesga de boa vontade se esvai em milésimos de segundos. Foi assim ontem, quando tive que cruzar por um bloco para pegar filmes na locadora que garantirão a felicidade e a paz do meu carnaval.
Espero imensamente pela Quarta-feira de Cinzas. É quando o meu humor, tal qual a Fênix, promete renascer.









Olá Tiago Velasco.
A crônica transforma a situação ordinária em objeto de prosa poética e despretensiosa, cujo único compromisso é com a satisfação da leveza.
Sabe Tiago nada melhor do que o leitor se deparar com algo gostoso de se ler,é como uma correria dos olhos no texto querendo encontrar desesperadamente o final,e assim foi quando eu comecei ler sua coluna.
Adorei.
Fã de carteirinha já.
Um abraço.
Oi Tiagooo
Sem querer ser ranzinza, mas inevitavelmente sendo, tenho que confessar que não gosto de carnaval. Não vou nem me aprofundar na ideia da felicidade sem sentido que assola grande parte da população durante um bom par de dias e que, ao fim, mas inevitavelmente, se transforma em protodepressão. A tristeza que acomete foliões é tamanha que a festa de Momo dura mais a cada ano.
Confesso a você que eu também não sou muito fã de carnaval,embora ache a cultura espetacular,pois é a cara do Brasil.
Prefiro me retirar em meio a pensamentos na companhia de um bom livro e até mesmo ter uma overdose musical.
Super legal sua coluna.
Bjo.
Jéh
Querido Tiago…
Também não sou, atualmente, grande fã de carnaval…
Mas já gostei muito!!
Adorava quando minha mãe me levava nas “matinês”, que eram os bailes de carnaval durante o dia, para crianças… Amava estar lá, no meio de tantas outras crianças, dançando, pulando, cantando e jogando confete nos coleguinhas….
Na adolescência, minha mãe nos levava ao baile de carnaval à noite… Ficava lá, de olho na gente… novamente eu só ia pra dançar, não fazia uso de bebidas alcoólicas ou qualquer outra coisa que pudesse me deixar mais animada (não precisava…), não ficava beijando nenhum menino também… Nem era só porque minha mãe estava lá. Era porque eu não queria. Só queria dançar, era isso que me deixava feliz… Mas a maioria dos meus colegas fazia tudo isso e muito mais!!
Na juventude, minha mãe já não ficava comigo (e minhas irmãs) no baile, claro. Mas não fez muita diferença no meu comportamento. Só queria me divertir… Mas não durou muito… Com 18 anos eu já não achava muita graça no carnaval…
Hoje carnaval é sinônimo de descanso, de feriado… Mesmo assim, gosto da alegria, das cores, da fantasia das pessoas… Se é alienante? Sim, com certeza… Mas fugir um pouco da realidade de vez em quando faz bem também…
^^
Beijos!
Muito obrigado à família Cajado, sempre presente por aqui, e à Hélia, que tb nunca deixa de bater ponto no Escrevinhando.
A Quarta-Feira de Cinzas chegou, e se não fosse por uma ressaca que me pegou de jeito, acho que o meu humor já estaria renascendo.
Bjs,
Tiago
Caríssimo, que texto bem escrito!
É verdade que não somos todos os que gostamos de carnaval; mais ainda, que a folia demorada é cansativa. Da minha parte, fiz um programa diferente: acampamento + forró! Foi bom para mudar dos tradicionais ares dos blocos carnavalescos para algo bem menos ortodoxo. Já venho seguindo nesse projeto de variar de programa há alguns anos, na verdade, e, devo dizer, pretendo continuar assim nos próximos anos. Essa coisa dos blocos abarrotados de gente acho que não pega mais também não.
Abração!
Gui
Olá, Tiago,já de volta a Sao Paulo, depois de 5 dias no Rio, li sua cronica. Gosto dessa leveza, da leitura legger, como diriam os franceses. Acho que é assim que se escreve, sei lá. mas o que eu gostei mesmo é que eu acho a mesma coisa, nao gosto daquele monte de gente suada, com uma alegria a meu ver irreal ou falsa mesmo, aquele solão na cabeça! nao, definitivamente nao! meu negocio é o sossego, o ar fresco, um bom bate-papo. E abaixo os blocos que deixam o transito insuportável e faz os taxistas desaparecerem de circulação, literalmente.
parabéns pelo texto! bjos
Marcia
Oi Tiago,
Você como sempre, muito bom com as palavras…
Engraçado. Lembro perfeitamente do dia que você disse que não iria mais sair na banda com sua mãe. Lembro como você ficava irritado e como aquilo era muito massante para vc.
Com muita leveza você me remeteu a este passado e me fez relembrar esse mesmo sentimento que tenho hoje em relação ao carnaval. Passamos os dias lendo os jornais. Saber onde estarão os blocos para ficar o mais distante possível deles.
Mas, absolutamente, sou adoradora deste feriadão.
Bjs
Carnaval é a doce ilusão, eu diria além. O Brasil, que tem um povo castigado pela corrupção, pela injustiça, entre outras coisas, se desliga nessa época do ano. Parece que todo mundo tem dinheiro no bolso, doenças não existem, as vidas são maravilhosas, enfim: “é tudo lindo”. É bom ser otimista, claro… uma ilusão não faz mal a ninguém. Mas prefiro passar. Não curto essa época do ano. Acho que essa alegria demasiada me dá nervoso. Parece falsidade. Não é?
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Prosa em Verso
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
(…)
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tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
“Trouxeste a chave?”
(Carlos Drummond de Andrade)
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