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Literatura no consultório

7 Fevereiro 2010 2 comentários

Por Cláudia Dans em Conversa metafórica!

Nos últimos seis meses tenho ido frequentemente ao dentista. E não foi diferente no mês de janeiro. A única diferença refere-se ao fato da minha dentista ter recitado um trecho de um poema de Manuel Bandeira:

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei”

Surpreso, leitor? Eu também fiquei surpresa. Na verdade, fiquei admirada e emocionada. Ver e ouvir um profissional como o dentista declamar um poema e mais do que isso, ter o texto incorporado a sua rotina diária, é surpreendente. Ademais, esse fato prova a tese de que Literatura pode e deve fazer parte da vida de qualquer profissional, seja ele engenheiro, químico, médico, analista de sistema, dentista.

Toda essa história começou quando disse que era professora de português. Entre um aperto aqui e outro lá (já que uso aparelho odontológico), a dentista contou sua relação com as aulas de língua portuguesa. Segundo ela, gramática não será o seu forte. Se já tinha problemas para acentuar as palavras, depois da Reforma Ortográfica a dificuldade piorou. Na realidade, a dentista gostava das aulas de redação e de Literatura. Eis que surge a figura do antigo professor de português do colegial – atual ensino médio –, que falava dos livros, dos textos. Ou seja, ele contagiava os alunos contando os enredos dos livros, explicando os poemas… Tanto que ela, sempre que estar com alguma preocupação, declama: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada”.

E qual seria a relação dessa narrativa com a Literatura? A resposta é simples: a forma como a Literatura é tratada e passada na escola. Ou seja, qual é o tratamento dado ao texto literário que o faz ser citado por um dentista? E detalhe, com paixão?

Como professora da rede pública do Estado de São Paulo, sei que a escola tem um papel significativo na divulgação da Grande Literatura. É através dela que as várias crianças e adolescentes conhecem Machado de Assis, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, etc. No meu caso, lido com aproximadamente 40 adolescentes e faço um esforço, às vezes, subumano para com que eles leiam um conto machadiano e entendam o que leram! Para isso acontecer, uso uma grande dose da minha paixão pelo texto, somando a isso, leitura e conversa, além do estudo completo todo texto literário. O resultado, para minha alegria, é curiosidade atiçada!

Agora, será que um estudo completo de um texto literário combina com uma proposta curricular que vê a Literatura como um gênero textual e não como um universo particular? Ou com uma apostila que examina apenas uma palavra de um poema e que pergunta diante de dois textos “De qual texto você gostou mais? Por quê?” Definitivamente, essas questões restringem qualquer discussão literária. Porque, por exemplo, um poema não é feito apenas de palavras. Pelo contrário, há uma série de elementos que, se ignorados, perde-se o sentido.

Tomemos como exemplo o poema “Luar de verão”, de Álvares de Azevedo. Esse texto aparece no material distribuído pela rede pública estadual de São Paulo, mais precisamente, no caderno do aluno do 2º ano do ensino médio. É importante comentar que esse caderno faz parte da rede estadual desde 2008. Na tentativa de melhorar os índices de leitura, interpretação e produção de texto do ensino fundamental II e médio, a Secretaria de Educação implantou uma nova proposta curricular. Reorganizou-se o currículo para que em cada bimestre de cada serie, o estudante aprenda o necessário para seguir nos estudos. Para isso, criaram os cadernos do aluno e do professor, algumas com erros bastante graves como ter dois Paraguais no caderno de Geografia do Fundamental II; que conduziria o trabalho do professor e, consequentemente, do aluno. Mas voltemos ao poema de “Luar de verão”.

Nesse poema, o eu lírico compara sua amada a Lua, mas à distância os separam. Resta-lhe apenas a contemplação, o amor platônico tal como um trovador da Idade Média. Entretanto, o estudo desse poema restringe-se ao exame da palavra “trovador”. Os demais aspectos tais como a forma que a amada é descrita, a presença de elementos da natureza, a repetição do verbo “ver” não são comentados em momento algum do estudo. A preocupação é apenas com o termo “trovador”. A interpretação, se é que podemos chamá-la disso, se esquece também de referir-se ao fato do autor pertencer ao Romantismo Brasileiro.

Tomemos o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Após sua leitura, descobre-se que o eu lírico deseja ir para Pasárgada. Lá, ele terá a mulher que desejar, as aventuras que sonhar, pois lá ele é “amigo do rei”. Pasárgada é a felicidade, porque “Aqui eu não sou feliz”. Ou seja, onde ele se encontra há felicidade! Opondo Aqui e Lá, presente e futuro, a voz poética anseia partir para Pasárgada e lá encontrar uma vida menos “besta”, como diria Drummond.

Além disso, à medida que lemos o poema de Manuel Bandeira, observa-se a sonoridade, o ritmo de cada palavra e de cada verso. A linguagem com fortes marcas da oralidade, traz um tom coloquial, descontraído para o texto. Unindo oralidade e sonoridade, o poema pode facilmente transformar em uma canção. Tanto que o título se repete ao longo do texto, quase como um refrão, um refrão inesquecível! Porém, falta um ponto importante: o que é “Pasárgada”?

Campo dos persas, que suscitou a imaginação do poeta por anos, este lugar “é outra civilização”. Moderna, “tem telefone automático”. Espaço de felicidade, de modernidade, Pasárgada é um lugar de liberdade sexual e moral. O eu lírico pode satisfazer seus sonhos, desejos tendo a mulher que quiser em sua cama que escolher sem medo da repreensão da sociedade, porque lá é “amigo” do rei! Ou seja, a autoridade está ao seu lado e o protege de qualquer problema. Vale comentar ainda que saber da vida literária do poeta e quando o poema foi escrito ajudam a entender porque o eu lírico quer tanto ir para Pasárgada.

Agora, pensemos cuidadosamente. Saber apenas o significado de Pasárgada seria suficiente para compreender todo o poema? Por que ignorar que Manuel Bandeira passou anos imaginando Pasárgada e que a linguagem coloquial presente no texto era um dos ideais dos poetas do Modernismo? Enfim, é possível estudar Literatura apenas observando uma única palavra?

Ensinar Literatura é uma das tarefas mais difíceis que enfrento todos os dias, ainda sim, a realizo com paixão e de modo pleno, completo. Literatura não é um texto simples! Pelo contrário, as palavras num texto poético, por exemplo, nunca tem apenas um significado. As palavras criam imagens, na verdade, várias imagens que devem ser consideradas quando lemos um texto literário. Além disso, há também a musicalidade, o ritmo que não podem ser esquecidas num estudo literário.

Já no estudo apresentado pelas apostilas da Secretaria da Educação, percebe-se que Literatura é um texto cuja linguagem é diferente. Obviamente, um poema ou um conto possuem um trabalho significativo com a linguagem, porém não observar seu contexto de produção ou, dependendo do texto, os elementos biográficos do escritor, é tratar a Literatura de modo muito superficial, simplista! E uma coisa que não se deve fazer é abordar a Literatura como se fosse um texto difícil, sofisticado ou elaborado demais que não se possa ser lido ou interpretado. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!

Entretanto, focar apenas um elemento de um texto literário é, ao meu ver, um desserviço para o estudante. Ademais, sugere que o estudante não tem condições de interpretar o texto. Quando lemos e verificamos todos seus elementos, estamos utilizando nosso raciocínio, nossas leituras e nossas experiências. E mesmo que tenhamos poucas leituras, elas são validas e devem ser usadas! Sem medo! Porque só assim a interpretação de um texto literário se tornará natural. Tão natural que um dentista poderá dizer “Vou-me embora pra Pasárgada / lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada”.

Textos citados:

SÃO PAULO. Secretaria da Educação do Estado de SP. Caderno do Aluno: Língua Portuguesa. 2009. (2ª série – vol. 1).

SÃO PAULO. Secretaria da Educação do Estado de SP. Caderno do Professor: Língua Portuguesa. 2009. (2ª série – vol. 1).

2 comentários »

  • S.C Arte&Cultura said:

    Olá Claudinha tudo bem querida?

    Olha eu aqui novamente marcando presença em sua coluna…

    Como sempre você arraza nos textos,como é gostoso ler o que escreve!

    Ensinar Literatura é uma das tarefas mais difíceis que enfrento todos os dias, ainda sim, a realizo com paixão e de modo pleno, completo

    Eu sempre digo que temos que abraçar os nossos valores e paixões com confiança naquilo que fazemos,pois quando assim o realizamos conseguimos
    arranacar a obra prima que tem dentro de nós!

    Parabéns,você é uma das minhas que fa o que gosta e se sente realizada e plena…é isso aí,isso sim é conceito de arte!

    beijos…

  • Cláudia Dans said:

    Oi Sandra!!!

    obrigada pelas palavras carinhosas! E realmente, quando se faz o que se gosta, tudo fica mais fácil, flue melhor! E a satisfação, com certeza, é muuuuuuuito maior, né?

    beijos!

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