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Além do que os olhos podem ver

7 Fevereiro 2010 4 comentários

Por O QuartetoJoakim Antonio – em Grito de liberdade

Eu tinha 14 anos no meu primeiro emprego, trabalhava de office-boy em uma papelaria, fazia entregas aos clientes durante a semana, inclusive aos sábados, atendia no balcão, entregava correspondência todo dia cedinho no escritório central e fazia também serviços bancários. Ia do serviço direto para escola, me divertia muito nos dois, mas ficava ansioso pelo domingo, quando revia os amigos e tinha muitas histórias para contar.

Durante a semana havia um amigo na escola que era cheio de histórias, a família dele era bem humilde, como a minha, mas ele não trabalhava ainda; ele já tinha 18 anos, entrara tarde na vida escolar, o que para mim era incompreensível, afinal ele era muito inteligente, fazia contas mais rápido do que eu manipulava minha calculadora, jogava xadrez como um mestre, era um escritor fabuloso e só tirava notas máximas. Eu me perguntava o porquê dele ainda estar no 3º ano do ensino médio.

Um dia eu pensei tanto nisso que não aguentei. Falei: “Zé, preciso te perguntar uma coisa, sempre penso nisso, mas nunca perguntei, aliás, duas, me conta, por que você entrou tarde na escola e por que você não trabalha, já que diz que sua família passa por algumas necessidades?”.

O Zé olhou para mim com espanto, “você não sabe mesmo?”. “Claro que não Zé, por acaso já viu perguntar algo que já sei?”. Ele me olhou com espanto novamente e deu um pequeno sorriso, balançando a cabeça de um lado para o outro e disse. “Ah, Joakim, Joakim, você é muito ingênuo mesmo, pensei que isso estava na cara”. “Como na cara, Zé? Você é o cara mais inteligente que conheço e um verdadeiro professor perto de nós, suas notas são sempre máximas, fala muito bem, podia ter um emprego desses que pagam bem, cara; poderia até ensinar xadrez, inglês, japonês, espanhol, ah, sei lá, não lembro quantas línguas você fala mesmo; fora informática, que nas aulas lá você detona. E aí não to certo?”.

O Zé me olhou com mais espanto ainda, com aquele olhar de quem não acreditava que eu não tinha a resposta, pois para ele era óbvio demais e para mim um mistério. Ele pediu para sentar-me ao lado dele que iria me contar uma de suas histórias, me disse que não era uma história só dele, mas de diversas pessoas como ele. Sentei e falei: “pode começar amigo”.

“Bom, Joakim, eu percebi agora o que está acontecendo aqui, você realmente vê com o coração (na época não entendi), mas a verdade é bem simples, olhe bem para mim, eu simplesmente não trabalho, porque as pessoas não querem contratar alguém de cadeira de rodas”. Nesse momento eu que fiquei espantado, afinal o que as pernas tinham a ver com os braços, via as pessoas por onde passava durante o trabalho, o dia inteiro sentadas, às vezes em frente a um micro, outras em frente a um aparelho de telefone, alguns poderiam muito bem estar de cadeira de rodas, eu só via a cabeça deles, atrás do balcão!

Meu amigo continuou falando e disse que por causa disso não o deixaram frequentar a escola onde morava e não havia outras escolas próximas, mesmo se houvesse ele não tinha como se locomover, porque na época nem cadeira de rodas possuía, sua mãe o levava nos braços. Emprego nem pensar, não que não houvesse procurado, procurou e muito, as rodas da cadeira ficaram carecas na época e nada. Contou como não havia guias baixas, rampas, nem orelhões baixos para usar, e como teve um problema nos rins, por causa de beber pouca água, afinal banheiros públicos era outro problema, não havia elevadores em muitos locais, nem ônibus com local apropriado, cinema, teatro e outras coisas ele só ia porque havia uma turma de amigos que o carregava na entrada, mas que isso o humilhava, não porque o carregavam; mas porque para a sociedade parecia que ele não existia. E o pior, já havia tentado dar aulas particulares, mas no local onde morava, ninguém queria ter aulas com o “aleijadinho”, e ainda zombavam dele, “estudar pra quê, não vai conseguir nada mesmo”, eles diziam. Disse-me que agora seus planos estavam indo bem e que eu poderia desfazer aquela cara de choro, pois ele tinha uma notícia maravilhosa para mim, havia passado na faculdade, bolsa integral, seu sonho agora era se tornar professor.

“E aí, não ficou alegre com a notícia?”. “Claro”, eu disse. “Então porque essa cara de tão pensativo?”. “Porque eu não havia notado tudo isso que você disse, da forma como me mostrou e na minha mente, vieram imagens de mais pessoas que devem ter vivido, ou vivem, discriminações como a sua. Há o meu vizinho Dilmar, o ‘Má’, que possui um tipo de atrofia dos músculos e pega latinhas e papelão para revender, um outro Zé que mora um quarteirão abaixo de casa, joga damas como ninguém e reconhece todos os amigos, Às vezes só pelo aperto de mão, mas principalmente pela voz, e nos enxerga com o coração, pois é cego. Também percebi que meu amigo de criança, que conversava com as mãos comigo, sempre que passava para pedir um prato de comida, talvez pedisse, porque trabalhar não conseguia”.

Quando percebi, o Zé estava me abraçando e com minha cabeça no seu ombro, eu vi que ele também estava com olhos marejados e me disse algo que não esqueci jamais; “Quero que você que você me prometa uma coisa, nunca trate ou deixe outros tratarem pessoas com algum tipo de deficiência como diferentes, quero que você continue pra sempre como é hoje, trate-os do mesmo jeito que você me tratou até agora, como amigos!”

O Zé passou de ano, como já era esperado, e só o vi uma vez mais, quando foi na escola buscar seu histórico e disse que estava adorando a faculdade, estava trabalhando e me mostrou seu carro adaptado, e me disse mais uma coisa: “Agora, amigo, eu tenho LIBERDADE!

Meu amigo Ivan, que se arrastava por todo o caminho quando eu ia para a escola, com o tempo, operações e fisioterapias, começou a andar, foi contratado depois pelo mercado da vizinhança, hoje em dia é um hipermercado com um shopping em anexo e o Ivan trabalhou lá até sua aposentadoria.

Eles o ajudaram a dar seu Grito de Liberdade!

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No Brasil, 14,5% da população são pessoas portadoras de deficiência.

Aproximadamente 9 milhões de pessoas portadoras de deficiência estão trabalhando.

Os resultados do Censo 2000 mostram que, aproximadamente, 24,6 milhões de pessoas, ou 14,5% da população total, apresentaram algum tipo de incapacidade ou deficiência. São pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental. Estima-se que esse número, em 2009, tenha crescido para algo em torno de 26 milhões de pessoas.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

4 comentários »

  • Paulo César Moreira said:

    É com felicidade que vejoque os tempos mudaram pelo menos um pouco e que com garra as pessoas chegam onde querem.
    A maior parte das vezes as pessoas se vêem como coitadas e por isto não progridem.
    Minha mãe teve paralisia infantil, na época em que tentou um cargo público, foi tolida devido sua deficiência, mesmo sendo capaz de exercer a função. Hoje temos mais leis, um pouco mais de conforto, mas não é o suficiente, ainda mais na periferia.
    Mas minha mãe se casou, teve a nós três, construiu uma casa com sufoco, mas que nos recebe muito bem, é respeitada na comunidade e nunca teve a crise daa coitadinha. Foi á luta. Muito se deve a meu avô, que sempre a incentivou. Na verdade, ela tem mais disposição que eu aos 64 anos de idade. Dedico este post à ele.
    Joakim, obrigado por nos lembrar desta parcela da população que ainda é discriminada mesmo hoje.

  • Fernando said:

    Puxa, meu caro Joakim, eu fiquei muito emocionado ao ler esta história tua. Fez me lembrar que, há exatos cinco anos (sim, faz tempo!), eu estava voltando a pé da escola, quando na minha frente tropeçou uma garota, com a mesma idade que eu na época (15, talvez), e eu estendi minha mão para ajudá-la e verbalizei minha oferta, mas ela apenas gesticulou em retorno, deixando claro que era surda-muda e que poderia levantar-se sozinha. E assim ela se levantou, recusando meu auxílio, e passou por mim contrangida.

    Quão triste eu fiquei naquele dia! Pois será que a pessoa se sente tão marginalizada a ponto de esquecer que verdadeiras amizades podem existir, e que as mais verdadeiras são exatamente aquelas que se firmam nas diferenças e não na homogeneidade? Mudei de escola, e jamais a vi de novo. Quem sabe ela não encontre um amigo de verdade, que ouça e fale, e que ainda assim a respeite de igual para igual? Meu coração ficaria satisfeito caso isso ocorresse!

    Obrigado, Joakim, por este texto teu que me fez rememorar esse acontecimento ímpar e por isso mesmo impactante.

  • Joakim Antonio said:

    Paulo César, apesar de eu ter ficado ausente em quase tudo na web, li todos comentários. Fico feliz e que sua mãe e seu avô sirvam de exemplo a todos que passarem por aqui, mostrando que mudar o mundo se começa em casa!

    Parabéns e obrigado!

  • Joakim Antonio said:

    Fernando, quando o escritor consegue transportar alguém para seu texto e despertar algo em quem lê, ele fica muito feliz, porquer realmente seu texto está vivo.

    Obrigado e convido a todos a conhecer o trabalho do Fernando – Interesses e afins no endereço: http://fejapimenta.blogspot.com/

    Vocês se surpreenderão com a qualidade de sua escrita!

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