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Mídia jornalística sem resultado

28 Janeiro 2010 2 comentários

Por Diego Seixas em Sobre mídia e jornalismo

O presidente venezuelano Hugo Chávez quer controlar a sociedade venezuelana por meio dos meios de comunicação. A suspensão das emissões da RCTV e de outros cinco canais de TV a cabo, por omitirem a íntegra do seu discurso do sábado (23/1), revela uma estratégia escancarada de coerção.

A China é mais sutil: exerce um policiamento informativo ainda mais drástico através das intrincadas ferramentas da internet, hoje acessada por 360 milhões de usuários virtualmente prisioneiros da censura política. A filtragem das informações é silenciosa: não se faz apenas por intermédio do buscador Google, mas também através do controle do que os internautas chineses podem emitir.

Nosso Big Brother (George Orwell, no 1984) é generoso, paternalista, ameno e difuso: não é estata, nem é privado, atende simultaneamente aos interesses de ambos – é misto. Quando foge da exposição prolongada das tragédias está apostando numa temporada de euforia das massas e antecipando-se ao interesse recôndito de um governo altamente popular, prestes a ser avaliado nas urnas. Ao mesmo tempo, serve aos seus próprios interesses como arauto e beneficiário da anunciada prosperidade.

Ninguém emitiu decretos ou diretrizes para tirar do noticiário as tragédias de Angra do Reis e de Ilha Grande – foi a própria mídia, acostumada a conter-se em coberturas fragmentadas, que mostrou sua incapacidade de mergulhar em empreitadas de longa duração. A manutenção do dilúvio no Sudeste do país ao longo de mais de um mês, ao invés de reforçar e adensar a cobertura, tornou-a aguada, episódica, sazonal.

O Carnaval está aí, as campanhas publicitárias das cervejeiras exigem conteúdos descontraídos, prazerosos e descartáveis. Gente deprimida por tragédias não consome, não gasta, recolhe-se. Melhor sentar no banco dos réus os fenômenos climáticos do que os administradores preocupados apenas com os próximos mandatos; ou empreiteiras irresponsáveis ou engenheiros incompetentes, incapazes de prever situações-limite.

Menos de uma semana depois da catástrofe do Haiti, o Jornal Nacional e a Central Globo de Jornalismo optaram por compactar, burocratizar e neutralizar uma cobertura iniciada com grande dramaticidade e humanidade. Na véspera de completar duas semanas (segunda, 25/1), enquanto a mídia internacional não arrefece e mantém a intensidade inicial, nossa maior rede aberta de TV, e uma das mais importantes do mundo, leva a uma parte substancial da população brasileira um vigésimo do tempo e da atenção ao Haiti que a sua co-irmã, a Globo News (edição das 22h) oferece à restrita e qualificada audiência.

Seria injusto circunscrever essas avaliações à Venus Platinada: na segunda-feira (25/1) os três jornais impressos nacionais recusaram-se a destacar em suas capas o vasto noticiário sobre o Haiti contido nas páginas internas. Entende-se: no fim do feriadão na maior cidade do país melhor deixar as primeiras páginas ocupadas por amenidades. A minoria acostumada a ler o jornal inteiro que vá sofrer e chatear-se sozinha.

Habituada aos longos períodos de autocensura e autocontrole (no Estado Novo e depois do regime militar), nossa mídia encontrou uma maneira de ajustar-se aos interesses dos ocupantes do poder. Às vezes acontece um curto-circuito – como os anúncios de conferências públicas para discutir questões sensíveis –, então todos se estranham, mas logo tudo se ajusta.

2 comentários »

  • Rodrigooo said:

    explendida a materia parabens….
    sempre acompanho o blog e olha parabens

  • Hélia said:

    Olá, querido!!

    “Menos de uma semana depois da catástrofe do Haiti, o Jornal Nacional e a Central Globo de Jornalismo optaram por compactar, burocratizar e neutralizar uma cobertura iniciada com grande dramaticidade e humanidade. Na véspera de completar duas semanas (segunda, 25/1), enquanto a mídia internacional não arrefece e mantém a intensidade inicial, nossa maior rede aberta de TV, e uma das mais importantes do mundo, leva a uma parte substancial da população brasileira um vigésimo do tempo e da atenção ao Haiti que a sua co-irmã, a Globo News (edição das 22h) oferece à restrita e qualificada audiência.”

    Em tempos de tragédia no Haiti, de escândalos na política, da repressão, da censura, das enchentes, da violência… o povo só queria saber se uma tal de Tessália ia sair do BBB10!!

    A mídia mostra o que o povo quer ver…

    :-(

    Beijoooss

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