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São Paulo que inspira!

24 Janeiro 2010 7 comentários

Por Cláudia Dans em Conversa metafórica!

São Paulo: terra da garoa, do trabalho, dos dois pastel e um chopis, vendidos nos inúmeros botecos da cidade. São Paulo é cultura, moda, cinema, literatura. É música, teatro, pizza, vida!

À véspera de completar 456 anos de vida, Sampa é sinônimo de caos. A beleza cantada por Caetano Veloso tem desaparecido lentamente em meio aos congestionamentos, alagamentos, afogamentos, atropelamentos… O buraco do metrô engole tudo: engole queda de avião, tiro de canhão, aumento da corrupção, polícia e ladrão!

São Paulo é contradição: moderna e atrasada. Rica e pobre. Linda e feia. Enfim, é a cidade em que os opostos se atraem, mas que convivem perfeitamente! Às vezes harmoniosamente. São Paulo é respiração, inspiração. E contagiada por seu aniversário, escolho Mário de Andrade e sua Paulicéia Desvairada, para pensarmos sobre essa cidade-mundo.

Publicado em 1922, numa São Paulo ainda provinciana, que caminhava a passos largos para se tornar o que é hoje, este livro de poema tem a cidade da garoa como musa. Com uma linguagem simples, coloquial e com propositais “erros” ortográficos e gramaticais, Mário de Andrade atende aos preceitos do Modernismo: verso livre, experimentações, inovações poéticas, além da crítica, com o objetivo de produzir uma Literatura legitimamente moderna e brasileira.

Em “Inspiração”, primeiro texto de Paulicéia Desvairada, o poeta futurista, chamado assim por Oswald de Andrade; apresenta-nos o retrato físico de uma São Paulo marcada por uma profunda dualidade.

“Inspiração”

“Onde até na força do verão havia
tempestades de ventos e frios de
crudelíssimo inverno.”
Fr. Luís de Sousa

São Paulo! Comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Anys!
Bofetadas líricas no
Trianon… Algodoal!…
São Paulo! Comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!

No poema acima, verifica-se, a partir da epígrafe de Fr. Luís de Sousa, que São Paulo será descrita sobre a ótica do clima: “verão/tempestades de ventos”, “frios/inverno”. Opondo temperaturas tão distintas, é inevitável não pensarmos nas fortes chuvas de verão, que param a cidade e no inverno, seco e poluído, que congela o corpo e a alma. Seus contrastes, porém, não se limitam apenas ao tempo, sempre instável, São Paulo é “ouro”, “forno”, “algodoal”. É as “líricas no Trianon”, é os “perfumes de Paris”.

Referindo-se à burguesia paulista que frequenta Paris – modelo de progresso e de cultura – e o luxuoso restaurante/confeitaria Trianon; e a indústria que crescer e progride, o eu lírico revela uma São Paulo rica, não só em dinheiro, mas em cultura. Ao citar “líricas no Trianon”, a voz poética acena para o futuro papel cultura da cidade. Palco da Semana de Arte de 1922, São Paulo habituou-se a ser cenário de grandes eventos culturais e teatrais. Sua vocação para cultura pode ser observada nos inúmeros acontecimentos que organiza e oferece, como a Amostra Internacional de Cinema e a Bienal Internacional de Arte (Bienal), para ficarmos apenas nesses dois eventos.

É interessante notar em “Inspiração” como o eu lírico vê e sente a cidade. Ao dizer por duas vezes “São Paulo! comoção de minha vida”, ele mostra o quanto a terra da garoa o emociona. Essa emoção transparece na pontuação repleta de reticências e pontos de exclamações. Ademais, ao descrever a cidade, o sujeito poético não usa verbos, não há indicações de ações, pois a cidade surge por meio de imagens e não por ações. A única ação existente é a da emoção, do desconcerto que São Paulo causa ao eu lírico. E para ele, a maior cidade do Brasil tem a imagem de um Arlequim, com sua roupa de losangos. Figura do teatro italiano que em parceria com o Pierrô, formam o alegre e o triste.

Tal referência nos remete não só ao carnaval paulistano, mas a uma de suas características mais presentes: as diferenças sociais. Embora seja um cidade rica em bens materiais e cultura, esses elementos não chegam à periferia, que sofre com a falta de lazer, trabalho e saúde. Além disso, a imagem do Arlequim casa-se perfeitamente com a imagem da cidade, pois São Paulo se constrói por meio das diferenças. Tudo nela é contraste, oposição. Ao mesmo tempo em que ela é rica, ela é pobre. Ao mesmo tempo em que ela é alegria, ela é tristeza. É impossível não pensar no “forno” como metáfora do progresso industrial e urbano de São Paulo com suas grandes avenidas e marginais que se transformam em extensões dos rios, ao menos sinal de chuva!

Apesar disso, São Paulo ainda inspira! Inspira um olhar crítico, obviamente. Mesmo tomado por uma atitude inconsciente, visto que o título do poema de Mário refere-se a um ato intuitivo, sem a presença da razão; o sujeito lírico não perde a visão crítica sobre a cidade. Ao dizer “Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes”, ele revela quanto a burguesa paulista vive da aparência, sempre discreta e bela, já que esconde seus pecados. Mais do que isso, esta sociedade parece também não se incomodar com os escândalos do outro, especialmente se o outro não está à vista, não está na sua vista.

Em outro poema de Paulicéia Desvairada, Mário de Andrade evidência muitíssimo bem o quanto a cidade não vê o outro. Ou quando vê o outro, ela pensa estar vendo outra pessoa. Isso porque a garoa não a deixar ver realmente quem vem ou quem vai. Segue poema:

Garoa do meu São Paulo,
– Timbre triste de martírios –
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.
Meu São Paulo da garoa,
– Londres das neblinas finas –
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.
Garoa do meu São Paulo,
– Costureira de malditos –
Vem um rico, vem um branco,
São sempre branco e ricos…
Garoa, sai dos meus olhos.

Num jogo de ir e vir, contrapondo “rico/branco”, “pobre/negro”, Mário de Andrade mostra que São Paulo é feita de raças distintas, mas a “neblinas finas”, a “garoa” esconde isso. Somente quando se aproxima o olhar é que se ver realmente os contrastes: o “branco”, o “negro”. O que se evidência, é que a cidade, apesar de formada por diferentes classes sociais e raciais, não expõe isso claramente, porque a garoa não sai de seus olhos. Há neblina como em Londres! Logo São Paulo acaba revelando “sempre branco e ricos…”. E para ver o outro, a diferença, é preciso fixar o olhar mesmo sobre a fina garoa.

Mesmo assim, São Paulo ainda é a “comoção da minha vida”. Sua luz inspira, instiga, comove! Embora construída sobre a viga do contraste, das diferenças, da oposição, ela ainda guarda alguma beleza. Quem sabe sua beleza não está na diversidade? Mas até quando ela aguentará tanta desigualdade social, racional, moral? Mas São Paulo é assim! Variedade! Muita variedade!

Romances em que São Paulo aparece como cenário, espaço, lugar!

Mário de Andrade. Macunaíma.

Alcântara Machado. Brás, Bexiga e Barra Funda.

Joca Reiners Terron. Hotel Hell.

Bernardo Carvalho. O Sol se põe em São Paulo.

Burno Zeni. O fluxo silencioso das máquinas.

Airton Paschoa. Dárlin.

7 comentários »

  • Sandra Cajado said:

    Oi Cláudia que coisa linda esse texto!

    São Paulo é a terra do contraste mesmo e apesar de altos e baixos,sem dúvida ela é maravilhosa,sou nortista e moro no nordeste,mas gosto muito de São Paulo.
    Mário de Andrade grande escritor…
    E os outros escolhidos por você fizeram a combinação perfeita para esse texto.

    “São Paulo: terra da garoa, do trabalho, dos dois pastel e um chopis, vendidos nos inúmeros botecos da cidade. São Paulo é cultura, moda, cinema, literatura. É música, teatro, pizza, vida!”

    Parabéns querida,adoro ler o que você escreve!
    Um beijo e muito sucesso!

  • Ellen said:

    Que texto lindo! Aliás, você escreve/descreve tudo que te inspira muito bem. Adoro sempre vir aqui e ler teus textos. Está de parabéns, Cláudia!

  • Cláudia Dans said:

    Oi Sandra!!!

    Obrigada pelo comentário e você tem razão: São Paulo é uma cidade maravilhosa, apesar dos problemas! Na verdade, o Brasil tem cidades lindas, como no Nordeste! :D

    Beijos e mais uma vez obrigada pelo carinho!

    Ellen,
    minha querida! obrigada pelos elogios e pelas visitas! Venha sempre! :D

    Beijos!!!

  • Paulo César Moreira said:

    São Paulo…meu lar…esta diversidade, disparidade, desigualdade.Mas é linda.
    Adorei ler seu artigo, me fez pensar, quem é negro e quem é branco? Miscigenação.
    Cidade Centro do mundo onde não é mais necessário ir a Paris para ter um pouco de lá, mas se quiser também pode.
    Às vezes sinto como se a burguesia estivesse morrendo se já não morreu.
    Mas os problemas da cidade estão aí. Que haja soluções.
    Linda homenagem, Cláudia!Sou um paulistano orgulhoso!

  • Cláudia Dans said:

    Olá Paulo!!!

    Muito obrigada pelas lindas palavras e que bom que você adorou o meu texto! E realmente São Paulo é miscigena, diversidade, variedade, enfim, é um mundo dentro de uma cidade! Nem precisamos ir a Paris, né?

    E que as soluções não demorem muito para surgir! São Paulo pode não esperar!

    Abraços!

  • Karine Almeida said:

    Olha eu aqui comentando!

    Ler sobre São Paulo, cenário de tantas histórias, é sempre agradável.
    456 ‘aninhos’, essa cidade cresceu e como cresceu!
    não só cresceu, mas evoluiu e continua evoluindo, acho que nunca vai parar.
    Lembro quando aconteceu o apagão e todos ficaram no escuro, tudo parado, nem parecia ‘Sampa’ rsrs

    vou pesquisar sobre as sugestões no final do texto, fiquei com vontade de ler mais sobre São Paulo, e nessa parte sempre entra o Google rsrs

  • Cláudia Dans said:

    oi Karine!

    obrigada pela visita e busque sim as leituras sobre São Paulo. Tenho certeza que você vai gostar! :)

    beijos

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