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Eu, robô, eu

22 Dezembro 2009 4 comentários

Colunista segue em sua vida dupla de humano e autômato

Por Tiago Velasco em Escrevinhando

roboAcordo com o despertador. Luto contra a vontade de continuar na cama por poucos minutos. Meu senso de responsabilidade faz eu me levantar rapidamente. Ou seria culpa? Sinto o meu coração bater. Café para despertar de vez; pão para dar energia. Higiene bucal, roupa, leitura da primeira página do jornal. Tchau, meu amor, estou indo. Te amo muito. Ao trabalho.

Sete minutos até o metrô. Três minutos, a composição. Tumulto no vagão. O ar-condicionado não funciona. Mais uma vez somos tratados como bovinos. E achamos normal. Qualquer traço de indignação é repelido prontamente: já vem polemizar. Polêmica é palavra não grata. Remete à atitude suspeita. Por segurança, é melhor marginalizar. Manter afastada para garantir a ordem e o senso comum. Todos bem comportados. E o metrô continua cheio, caro e quente. Sete minutos até o escritório.

Oito andares. Abro a porta de vidro. Ah, o ar-condicionado funciona. Funciona bem. Muito bem até. Começo a congelar. Sento na cadeira, ligo o computador, ponho o celular ao lado. Abro uma porção de janelas ao mesmo tempo. Está frio. Meu coração não bate mais. É o que parece.

Como um autômato, trabalho. Analiso, agendo a home do portal, sou pragmático. Estamos vendendo mal. Ponho uma foto de uma moça com bunda grande no destaque. Funk com palavrão também vende bem. Não me esqueço de botar o preço. Escolho o menor dos valores, aquele que tem um asterisco com uma explicação em letras miúdas. Ninguém lê.

Uma hora. Levanto. Tomo água. Depois, café. É para trabalhar melhor. Ponho o meu fone de ouvido. Isolado pela música, faço parte do grupo de funcionários da empresa. Todos ouvem música. Individualmente. Subo mais uma home para o portal. É a segunda do dia.

Milhares de frases de até 140 caracteres aparecem no Twitter. Não consigo ler todas. Janelas de MSN piscam em meu monitor. No celular, SMS e toques diversos. As duas contas de e-mail recebem mensagens de tempos em tempos. A maior parte não serve para nada. Tem que saber filtrar. É a grande questão da sociedade da informação. Dizem. Melhor não pensar nisso. Pensar desgasta. Preciso recarregar minhas baterias. Água e café.

O ar-condicionado segue gelado. E o coração, sem bater. Sete horas. Falta apenas uma. Subo a quarta home do dia. Ainda faltam duas. É para o fim de semana. Ninguém entra no portal no fim de semana. Melhor não pensar nisso. Desgasta, já disse.

A contagem regressiva começa. Fecho as janelas e os arquivos. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Tchau, até amanhã. Abro a porta de vidro. O calor fora do escritório esquenta o meu corpo. Meu coração bate de novo. Caminho em direção ao metrô despreocupadamente. O celular toca. Um convite para tomar um chope. Não estava programado, nem agendado. Aceito sem analisar o convite. O coração bate forte agora.

Minha vida humana segue assim, diariamente, com intervalos de oito horas para a minha porção robô.

4 comentários »

  • Glenda Dias said:

    Brilhante o texto!
    Parabéns mais uma vez!
    A sensibilidade de expor todos os sentidos, pensamentos, ações e cotidiano msm que vindo de um eu robô!
    Fiquei imaginando como deve ser ter idéia de tudo isso enqto acontece e ao msm tempo ter no peito um coração nada máquina que no fim se ressucita com um chope; que afinal acaba sendo o ‘escape’ para não ‘desgastar’!

    Obrigada pela reflexão proporcionada!

    Um beijo e carinho nda roboticos p/ vc!

  • Paula Jácome said:

    Muito bom mesmo! Adorei o texto! Mas fiquei com um pouquinho de vontade de te tirar do robô, de te dizer para que leve essa parte cheia de sensibilidade, a que escreveu o texto pra dentro do escritório. Mas vai ver nem é a melhor opção. É que eu não consigo me separar assim, quando me separo, acabo me achando e é uma confusão danada!
    Parabéns!

  • Mateus de Paula said:

    Estava na mesma. Auto-programado.
    Há duas semanas, cansei. Fail.
    Ano novo, programação nova.
    ‘Vamo’ que vamos!

  • Helmut said:

    Isso me lembra a música da Pitty. Na verdade, assim é a vida, não é mesmo? Sem querer filosofar, mas já filosofando, nascemos programados, temos que fazer X coisas, envelhecemos, temos obrigações e tudo mais. Como fugir disso? Não sei. Excelente texto, parabéns! Um forte abraço natalino.

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