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Só se descobre a Literatura, quando se descobre a Leitura!

13 Dezembro 2009 8 comentários

Por Cláudia Dans em Conversa metafórica!

Domingo chegou, e com ele, mais uma Conversa Metafórica! Mas antes, quero agradecer o carinho de todos que passaram por aqui, lendo, comentando, lendo, comentando, enfim, muito obrigada por participarem da minha estreia! E para comemorar essa felicidade, lembrei-me de um texto que tem tudo a ver com a minha paixão e com a conversa de hoje: Leitura.

O conto lembrado é “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. Um dos meus preferidos, dentro da minha infinita lista de textos favoritos; essa narrativa retrata a profunda paixão da narradora por livros e histórias. Transcrevo um trecho.

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria (Clarice Lispector, 1991, p.15).

Logo no primeiro parágrafo do conto, conhecemos as personagens: a narradora e uma menina que tinha “o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria”. Devoradora de história! Pensem na palavra: devoradora. A imagem não poderia ser mais curiosa e ao mesmo tempo, precisa. Ao se denominar devoradora de histórias, a narradora dizer que lê é alimentar-se. Ler um livro é comê-lo, e comê-lo rapidamente, desesperadamente.

Resumidamente, a história é a seguinte: a narradora devoradora relata sua “ânsia de ler” e as humilhações a que é submetida para conseguir o livro As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Segundo a jovem leitora, é “um livro grosso, meu Deus, era um livro para ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o” (1991, p. 16). Depois de um logo percurso, de idas e vindas, a menina-narradora consegue o desejado livro, além de ouvir o que já mais pensou ouvir…

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer (Idem, p.17-8).

Leram? “pelo tempo que eu quisesse”. Ao repetir parte da fala da mulher, a narradora expressa toda a sua alegria, sua felicidade. Uma felicidade, que embora fosse clandestina, ser-lhe-ia pelo tempo que quisesse. Não existiria data de entrega: o desfrute do livro seria eterno. Tanto que ao voltar para casa, carregando o tão sonhado livro, a menina leitora caminha “bem devagar”, para que o tempo pudesse parar, ou simplesmente, desaparecer! E a emoção da leitura pede isso: atemporalidade. Entretanto, a leitura pede também imaginação e entrega por parte do leitor. Mas isso, pouco a pouco, tem desaparecido. É como se ler exigisse um esforço maior do que segurar o livro nas mãos.

Conversando com alguns alunos sobre Crepúsculo – o bestseller do momento –, comentei que estava curiosa para ler a saga e descobri qual é o segredo de seu sucesso. (Assim que os lê, prometo uma conversa detalha sobre esses livros. Porém, já aviso de antemão, que pode demorar um pouco!) Eis que surge um comentário com ares de conselho: “Ah por que a senhora não espera os livros saírem em filme? É mais fácil, já vê tudo pronto na tela!”.

Os dias passaram, e quando procurava um tema para a coluna, lembrei-me dessa fala, assim como do conto de Clarice. Além de uma frase de Paulo Freire: “A leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo”. A partir daí, surgiu à pergunta. Ou seriam perguntas?

Afinal, o que significa realmente ler? Será que ler é apenas decodificar palavras com o intuito de descobrir a mensagem? Ou ler seria devorar livros como faz a narradora de “Felicidade Clandestina”? E o que é ler Literatura? O leitor desta coluna dirá que ler Literatura é ler histórias estranhas, que ninguém entende, pois a linguagem é antiga (adoro ouvir isso dos meus alunos!) ou a história não tem nem pé nem cabeça (adoro ouvir isso também!).

Retomemos a fala de Paulo Freire. Ao diz que lemos o mundo antes da palavra, o pedagogo afirma que o mundo é o nosso primeiro livro. É o mundo que nos alimentará com histórias, canções, cores e sensações. Tanto que Paulo Freire diz que aprendeu a ler no chão do quintal, pelo pai, a partir de suas experiências, de seu mundo recheados de árvores, pássaros e de todas outras coisas que estavam ao seu redor. E na escola, essa foi aprofundada, lapidada como um diamante.

É interessante pensarmos no que Freire fala sobre a leitura, pois para ele ler é experiência que a família oferece e que a escola intensifica e aprofunda. Isto é, leitura vem do berço, ou pelo menos deveria vir. São poucos os que têm a sorte de lerem em casa, ou de ouvirem em casa algum tipo de narrativa. Hoje, em pleno século XXI, contar ou ler histórias tornou-se uma tarefa rara, que foi substituída pelos jogos eletrônicos ou pela programação da TV.

Não estou aqui dizendo que os vídeos games e programas infantis ou desenhos devam ser abolidos. Pelo contrário, eu mesma, quando criança, joguei muito vídeo games. Alguém ai lembra do Atari? (Por favor, não diga que a colunista é velha! Magoa! Diga que ela é experiente!) Quanto aos desenhos, assisti a muitos quando criança. Era o meu passatempo preferido! Hoje já não é tanto, só nas férias! Porém, lembro-me também que em casa sempre tinha jornal, quadrinhos e livros: tive a experiência da leitura desde sempre. E a conservo mesmo com a Internet em franca expansão.

Entretanto, sei que muitos dos meus alunos não tiveram a leitura como experiência quando crianças. Para muitos, a leitura é uma tortura, um sofrimento que somente a TV ou o cinema salva. É só lembrar da fala do meu aluno: “Espera sair o filme!” Vale lembrar ainda que no Brasil, livro é um bem cultural caro. E biblioteca, hábito bem raro. Então qual seria a solução? Obrigar a escola a desempenhar mais uma tarefa, dentre as inúmeras que já tenta realizar precariamente? Ou exigir do Governo medidas eficientes e concretas para que a leitura torne-se lembrança de todos? Ou distribuir livros na cesta básica, como sugeriu certa vez Ziraldo? (Tomara que algum deputado leia isso e procure o Ziraldo para transformar o sonho em realidade! Mas isso já é outro sonho, não?).

Confesso que não sei qual seria a solução. Sei, contudo, que não há Literatura sem Leitura. Não há filmes, desenhos, quadrinhos ou jogos de vídeo games sem Leitura e, consequentemente, sem Literatura. Antes de ganhar as telas dos cinemas, qualquer filme, seja Crepúsculo ou Vidas Secas, foi primeiro livro. Um livro como o que a narradora de Clarice Lispector tanto queria. Porém, o livro continua esquecido e ignorado. São poucos os que buscam nos livros aventura, emoção, drama ou denúncia social. Ler um livro é, para muitos, uma atividade exigente demais para a mente.

E qual seria sua exigência? Além dos investimentos, que como disse não é dos mais baratos, e das iniciativas públicas como distribuir livros aos alunos da rede pública; ler pede concentração, entrega e raciocínio. E sinto dizer, nossos jovens têm isso, mas sua utilização é quase preguiçosa. Diante do colorido infinito da TV e da internet, com suas imagens super hiper mega dinâmicas e às vezes interativas, imaginar um cenário de desolação e de seca como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é realmente cruel, porém não impossível.

Com a leitura, podemos viajar sem sair do lugar. Lendo, podemos voltar no tempo ou ir para o futuro. Lendo, vamos ao céu ou ao inferno. Com direito a pararmos na Lua, para apreciarmos a paisagem. Os clichês são muitos e dizem a mesma coisa: ler é possibilidade de conhecimentos e de saberes inimagináveis. E ao contrário dos filmes, que contam suas histórias por meio de imagens; os livros devem ser lidos, pois é com as palavras que podemos exercitar a formação de imagens, que podem ser mais ricas que as do cinema.

Definitivamente, a leitura é o primeiro ato que devemos ter e isso deve começar de pequeno. Mas não quer dizer que um jovem não possa adquiri-lo. Pelo contrário, qualquer um pode ler. Todos devem ler sem medo, sem vergonha de consultar um dicionário, sem medo de repente parar no meio. A leitura deve ser um momento de pura entrega. E, principalmente, de pura felicidade.

No conto de Clarice Lispector, depois de brincar de perder e achar o livro de Monteiro Lobato, a devoradora de histórias senta-se na rede. Então vem a constatação e a transformação: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante” (p. 18). A metáfora é belíssima e extremamente sexual. A leitura é, como disse, entrega e paixão. E quando isso conduz o ato, fica muito mais fácil perceber e entender as metáforas do mundo e da arte!

Textos citados

Clarice Lispector: “Felicidade Clandestina”, IN: Felicidade Clandestina. 7 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

Graciliano Ramos. Vidas Secas. 70 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1995.

Paulo Freire. A importância do ato de ler. 23 ed. São Paulo: Cortez e Autores Associados, 1995.

Stephanie Meyer. Crepúsculo. 2 ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.

8 comentários »

  • Sandra Cajado said:

    Olá querida Cláudia Dans,tudo bem com você?
    Bem… sem palavras pra esse texto tão marivilhoso e gostoso de ler,pois sem dúvida,eu assim como você somos adeptas da leitura e como não de Clarice Lispector,essa escritora irreverente e muito ousada que eu tanto aprecio.
    Sem desmerecer os outros escritores maravilhosos citados também,nossa gostei muito mesmo e venho através deste lhe dar os parabéns…

    Pois: “Sei, contudo, que não há Literatura sem Leitura. Não há filmes, desenhos, quadrinhos ou jogos de vídeo games sem Leitura e, consequentemente, sem Literatura”.
    O mundo virtual nos tem sido muito útil e moderno,mas ainda assim sou amiga do tipo que ainda,gosta de ter bom um livro na mão,enviar cartões de aniversário e consequentemente de “Feliz Natal e Próspero Ano Novo” heheh…

    Um grande abraço e sucesso na sua coluna,pois sem dúvida temos sido enriquecidos com suas postagens…

    Um beijo!

  • Leandro said:

    Olá Profª!
    Gostei muito do seu segundo texto!Concordo com ele em várias partes, principalmente na falta de hábito da leitura das pessoas… É uma pena que a população não seja acostumada a ler, pois isso é uma maravilha! Desenvolvi o gosto por livros depois de crescido, pois quando criança, não tinha acesso à leitura.
    Dois pontos importantes do texto:
    - Crepusculo ? Melhor Harry Potter rrsrsrsr
    - Atari??????? A senhora é bem vivida hein? (encare como um elogio! rsrsrsrs)

    Parabéns pela coluna! Desejo sucesso! E desculpe as brincadeiras, mas a senhora me conhece!!
    Beijos!

  • Cláudia Dans said:

    Eeheheheh comentários! VAmos as respostas! :D

    Oi Sandra!

    Você também gosta da Clarice? Eu também! Tanto que o meu trabalho de conclusão na faculdade foi sobre ela! Logo é minha grande paixão! E concordo com você quando diz que a internet nos tem ajudado, mas ela não substitui e nem conseguirá, eu acho, o livro. Eu adoro sentir as páginas, o cheirinho dele. rsrsr
    É muito bom mesmo!
    Ah, obrigada pelos elogios e sucesso para você também!

    Abraços!!!

    Leandro, meu aluno querido!

    Que bom que você desenvolveu o prazer da leitura. Ela é importante demais e não pode ser ignorada! E realmente é uma pena que nem todos saibam o poder da leitura! Mas devagar as coisas vão mudando, né? E quanto a Harry Potter ser melhor que Crepúsculo… nunca li Harry Potter! rsrsr E sobre o ser vivida… sem comentários! ahahahaha

    Beijos e continue a ler!

  • Hélia said:

    Oi, Claudia!!

    Sou uma leitora incurável!

    Leio muito!! E leio rápido (o que ajuda a ler muito…)!!

    Como preofessora, incentivo demais a leitura dos alunos… Mesmo nas aulas de matemática, levo muita história e provoco a curiosidade dos alunos para que leiam…

    Nem precisa comentar o quanto os livros são muitoooo melhores que os filmes baseados nesles!! Semopre prefiro ler o livro antes, e sempre fico criticando o filme depois… rsrs

    Infelizmente, nossa cultura não é muito de ler, mesmo… Uma pessoa gasta, feliz da vida, R$50,00 em dvds… mas acha isso caríssimo para um livro! Eu, não… Compro muitos livros, geralmente pela internet, e meus olhos brilham quando o interfone toca aqui em casa e eu sei que são mue livros sendo entregues!

    A prefeitura de Belo Horizonte distribui livros literários para TODOS os alunos no início do ano. Uma das atitudes mais louváveis da PBH, em minha opinião. Os alunos recebem um kit escolar com mochila, uns 8 cadernos, lápis, borracha, cola, apontador, canetas (a partir do 6º ano, ou 5ª série do ensino fundamental), régua, esses materias básicos. Tudo muito simples. Mas os livros literários… são maravilhosos!! Em 2009 foram 8 livros, se não me engano… Vieram em um baú de papelão, muito bonito. Os livros são fantásticos, de Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Vinicius de Moraes, e tantos outros grandes escritores!! Todos os alunos recebem e são divididos pela faixa etária…

    O problema é mesmo a pouca importância que se dá aos livros. Alguns alunos ficam oferecendo os livros aos professores, porque dizem que não sabem o que fazer com eles. Alguns pais se desfazem deles, doando… Um dia chegou um caderno de um aluno que tinha sido encapado com… páginas de um desses livros literários! Quase chorei ao ver isso!!

    Acho que cada um de nós deve fazer sua parte, incentivando a leitura entre nossas crianças e adolescentes… para que se tornem realmente leitores, e não meros decodificadores!!

    Bom demais o seu texto!!

    Beijoooss!!

  • Allan said:

    Mais uma bela coluna, parabéns…
    Eu ainda lembro dos livros que você me obrigou a ler, e claro devo muito a você por isso, me mostrou como esses autores fantasticos escreviam e a forma como eu parecia com eles, obrigado pelos conselhos que me passou em relãção a minha escrita e leitura. Mais uma fez você tem razão, alias você conheçe a lingua portuguesa perfeitamente, sua coluna esta belissima, já fiz a leitura de todas as obras que você sitou…Parabéns

  • Cláudia Dans said:

    Oi Hélia!

    Obrigada pelo comentário! E fico muito feliz em saber que mesmo sendo de uma disciplina tão exata como matemática rsrsr, você incentiva a Leitura! Porém, fiquei triste em saber que os alunos na sua cidade recebem livros e não os leem! Ou melhor, “não sabem o que fazer”! Como pode ser isso!

    E pior que eu também escuto isso dos meus aluninhos! Se eles soubessem como ler é bom! :)

    Mas há esperança! Ainda bem que há professores como você, Hélia, que mostra que ler é importante e peça chave para o crescimento humano! Parabéns pela iniciativa! :D

    beijos!

    Allan!!

    meu querido, que bom saber que a obrigação foi valida! :) Espero que você descubra mais e mais autores e que a partir deles, você torne-se um escritor, né? quem sabe! rsrs (Já pensou, um aluno meu tornando-se escritor!!! rsrs) E obrigada pelo carinho, elogios e pela visita!

    beijos!!

  • Tatiana Monteiro (author) said:

    Cláudia, Cláudia, cheguei!
    Como sempre trazendo muita coisa boa! Clarice arrebenta sempre (asas, asas, isso lembra alguma coisa para você?)…
    Em resumo à sua postagem, um trecho seu definiria tudo: ‘não há Literatura sem Leitura’.
    E eu complemento carinhosamente com um adendo meu: sem leitura não podemos ser fazedores de histórias (principalmente fazedores e cumpridores de nossa própria história).
    Comentando esse trecho que me prendeu:
    ‘Afinal, o que significa realmente ler? Será que ler é apenas decodificar palavras com o intuito de descobrir a mensagem? Ou ler seria devorar livros como faz a narradora de “Felicidade Clandestina”?’.
    Se as pessoas devorassem livros com qualidade aliada à quantidade, com certeza nossos fazedores de histórias trariam outras experiências para nossa vivência.
    Ainda quando você diz que não há idade para começar a ler, concordo plenamente. Vide nas escolas idosos dando seus primeiros riscos do abecedário, entendendo aquelas letrinhas que antes eram rabiscos incompreensíveis!
    Não sei se me embolei no comentário, mas acho que me empolguei…
    Quando penso em Literatura, leitura, escrever, sentir, vejo mais do que o meu pensar, sinto realmente o meu pulsar =D
    Beijos!

  • Cláudia Dans said:

    Tatiaaaaaaaaaaaaaaana!

    Obrigada pelas lindas palavras! E você tem toda razão: sem Literatura não há leitura e nem fazedores de histórias! É como se um não existisse sem o outro!

    E se todos devorassem os livros, como você comentou, tudo seria muuuuuuuuuuuuito diferente: teriamos mais histórias, mais coisas boas, enfim, teriamos uma realidade bem melhor! Mas um dia chegamos lá, né? Ou será que já estamos caminhando para isso, com o Prosa em Verso? :D

    Eu penso que sim, pois a cada texto postado aqui, contamos novas histórias e criamos novos leitores, que consequentemente, criam novas histórias, e assim se vai! E assim continuará por muito tempo!

    beijos!!!

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